Joguei esse aqui e (eita!) parece trabalho. Fiquei cansadinha. Neste jogo você administra um laboratório farmacêutico e o seu objetivo é um determinado lucro em um determinado espaço de tempo (vai dizer que achou que o objetivo era salvar vidas? Sabe de nada, inocente!).
Você começa montando a planta da sua fábrica. Importa uns poucos ingredientes mixurucas que já estão disponíveis e já começa a vender suas cápsulas.
De repente começam a aparecer eventos mundiais que demandam novos medicamentos. Aí vem um aviso que um competidor já está lançando coisa na sua frente. Tem que correr para contratar pesquisadores (tipo Indiana Jones) mara entrar no mato (só podia ser nos trópicos, né?) para "descobrir" novas substâncias. Tem que contratar engenheiro para desenvolver novos equipamentos para chegar aos produtos aprimorados. Para criar o novo princípio ativo que o mercado está demandando tem que usar uma catalizador. Mas como faz isso mesmo? Ah! Tem que mandar o Indiana Jones para descobrir um catalizador no meio do mato. Ih caramba! Um competidor já lançou outro produto concorrente. Eita! Se tiver efeito colateral chato no meu produto o pessoal vai preferir comprar o da concorrência! Com qual máquina mesmo eu faço isso? Tem que diminuir a concentração!
Muitas emoções.
Sentimos na pele a correria do mercado, mas a saúde de verdade fica esquecida. Não se pensa em equidade em saúde. Não é à toa que Big Pharma é também o nome de uma teoria conspiratória que aponta que a indústria farmacêutica quer mais é que a humanidade se exploda, desde que tenha lucro.
Deixo aqui um link sobre o assunto: https://en.wikipedia.org/wiki/Big_Pharma_conspiracy_theory
Pois é... senti falta de além de ter exploradores e engenheiros, ter também um 007 para espionar o meu concorrente...
Ah gente, baixem e joguem este daqui. É muito bom! Foi feito para um canal de TV no Reino Unido que já abandonou o projeto, mas felizmente a tecnologia está para compartilharmos coisas também: http://www.baixaki.com.br/download/privates.htm
Diferente do anterior, este é um jogo muito bom de se jogar. Afinal, foi feito por um estúdio de desenvolvimento de jogos de entretenimento por encomenda de um canal de TV. O trailer é bem honesto, feito com cenas do próprio jogo:
Já viram, né? É a história de uma tropa de criaturinhas que invade as partes íntimas das pessoas para lutar contra uma multidão de monstrinhos que representam as DSTs. O jogo é cheio de metáforas e piadas engraçadas, mas... nada é perfeito quando se envereda na Comunicação e Saúde... Os probleminhas estão nos sentidos da saúde que este jogo reforça. Além da questionável metáfora bélica (muito comum em campanhas de saúde), nele a pessoa que tem DST é somente um objeto inerte, sem escolhas, sem protagonismo. O jogo é voltado para um público de mais de 14 anos e as mensagens são direcionadas a pessoas que nunca tiveram uma DST, pois se baseiam em "Esta doença existe e você vai se arrepender se pegar. Sinta medo dela!". Se eu fosse portadora de uma dessas doenças ia me sentir humilhada quando o jogo falasse dela.
Mas, apesar de tudo, este jogo vale a pena. Apesar de ser bem grandinha, me diverti horrores jogando e ainda aprendi algumas coisas. Sério, a gente pensa que sabe de tudo mas tem sempre alguma coisa para aprender.
Esse é o jogo que me convenceu que jogar AAA valia a pena. Antes eu só jogava os indie games, sabe? Ele também faz parte da minha pesquisa de mestrado, mas aqui vou somente fazer uma notinha sobre saúde, sem fazer justiça aos milhares de assuntos legais que brotam da análise do jogo.
A história é cyberpunk (para mim, o melhor exemplo de filme neste gênero é Blade Runner) e se passa no ano de 2027, quando próteses passam a ser usadas não mais para substituírem membros perdidos, mas para aprimorarem o corpo humano, a ponto de serem chamadas de augmentation (aprimoramento). A direção de arte do jogo criou o estilo estético Cyber-Renaissance, um estilo futurístico com elementos inspirados no Renascimento, porque é o período identificado como o momento em que a humanidade começa a entender o corpo como se fosse uma máquina. Só daí brota assunto da saúde que não acaba mais, pois há vários autores que identificam esta metáfora como uma forma hegemônica de pensamento que vem conformando a medicina há centenas de anos.
Banner de uma clínica Limb
O jogo também fala da forma capitalista de tratar a saúde. Aparentemente, todo o sistema de saúde é baseado nas clínicas Limb (Liberty In Mind and Body - Liberdade em Mente e Corpo) que fazem parte de um monopólio. Quando entramos em uma delas, nos deparamos com um banner digno de loja de departamentos onde está escrito "Serviço de crédito. Tenha aprimoramentos agora, pague mais tarde". Só faltava aparecer um NPC perguntando "O senhor já possui o cartão da nossa loja?".
Quem implanta coisas no corpo passa a ser dependente de um medicamento contra a rejeição natural, que é caro p'ra caramba e também é fornecido por somente uma empresa. Pois é, esta coisa de tecnologia para melhorar a vida das pessoas é a maior balela. O negócio é lançar produtos para obter muito lucro e lutar agressivamente para conseguir o monopólio do mercado.
Outra figura interessante é a da pesquisadora chefe que no início fala da pesquisa e desenvolvimento como forma de melhorar a vida das pessoas. (Spoiler adiante! Poxa, mas o jogo já é velho, né?) O nosso protagonista passa a história inteira em altos perrengues procurando ela para salvá-la e no final descobre que a danadinha está feliz da vida chefiando um laboratório no cativeiro, satisfeita com seus resultados e com seu estoque farto de cobaias humanas sequestradas sabe-se lá de onde.
A chefe de laboratório Megan Reed:
a princesa está em outro castelo!
Pois é... No meio de tudo isso, lembremos que muitos autores afirmam que as obras de ficção científica não são previsões para o futuro, mas manifestações de questões da atualidade.
Apesar do jogo merecer centenas de páginas, vou parar por aqui!
Vale conferir o trailer, que fala muito sobre o jogo e a história de fundo:
BioShock é um dos jogos selecionados para análise na minha dissertação de mestrado, mas acho que já posso fazer aqui um spoiler despretensioso e em uma escrita não científica.
A história se passa em 1960 em uma cidade submarina que não tem governante, mas tem dono, o tal do Andy Ryan, nome criado para fazer alusão à capeta filósofa Ayn Rand, odiada conhecida por desenvolver um sistema filosófico chamado de Objetivismo, que a primeira vista pode até parecer bonitinho para algum desavisado, mas na verdade prega o sistema do cada-um-por-si.
Você chega na cidade e está tudo aquela zorra, está havendo uma guerra civil, mas vamos à saúde.
Pelos ideais do poderosão Andy Ryan todo mundo que não dá lucro para ele é chamado de parasita. O discurso dele é "O homem talentoso cria coisas incríveis e vai lá o parasita e diz que tem direito à sua parte. O fazendeiro trabalhador produz comida com seu suor e vai lá o parasita e quer comer também. O parasita fica doente e quer que o médico vá lá curar ele de graça." Até saúde pública o cara acha indecente porque ajuda o tal do parasita, que tem mais é que morrer.
Lembrei até do Justo Veríssimo do Chico Anysio (gente, eu não sou tão velha não, tá?)
Com essa filosofia, o poderosão também acha que a pesquisa e desenvolvimento podem correr soltos, usando criancinha órfã e recrutando "voluntários". Liberdade lá é só para quem está podendo, parasita tem mais é que morrer. Dá para notar que a história de fundo é sobre como o Objetivismo não pode dar certo.
Dessa P&D "super legal" surgem substâncias que tem efeitos realmente mágicos e são amplamente comercializadas naquela cidade. Só esqueceram de falar nos efeitos colaterais que são deformidades, loucura e morte. Coisinhas insignificantes comparadas ao lucro daquele comércio. Lá vai crítica ao complexo produtivo e de inovação em saúde.
Pois é... Aí entra mais um tema importante na saúde. Conforme vamos avançando pela cidade, somos atacados por um pessoal mucho loco que chega gritando. São os tais dos splicers, pessoas que eram cidadãos normais como enfermeiras, médicos, donas de casa, músicos, etc, mas que agora, depois de usarem muito das tais substâncias, são soldados muito loucos controlados à distância pela elite polarizada da cidade com o uso de feromônios. Com eles não tem conversa, a gente vai matando todo mundo.
Um splicer vestido de cirurgião atacando o avatar.
Aí percebi uma coisa interessante, fora do jogo, os jogadores por aí chamam os splicers de zumbis. Mas os splicers não estão mortos, eles estão vivos. Eles também não comem cérebros. A condição deles também não é contagiosa. Ninguém vira splicer se for mordido por um. Aaaahhhh, aí eu me lembro de um outro pessoal que na nossa realidade material também é chamado de zumbi: os usuários de crack! Comparados a zumbis, eles perdem simbolicamente a humanidade, viram objetos, coisas sobre as quais as "autoridades" podem fazer o que quiserem sem perguntar. Afinal, zumbi não tem opinião, não é?
Me remeteu à discussão do documentário "Crack, repensar" (2015), que recebeu o prêmio de Melhor Curta Metragem pelo Júri Popular do REcine 2015. No final do trailer tem até cena de jogo de zumbi:
Essa associação automática com zumbi da pessoa com problemas de saúde mental me parece bastante perigosa, viu? Arranca a humanidade e subtrai os direitos de cidadão em um piscar de olhos.
The Town of Light é um jogo de terror psicológico em primeira pessoa passado no asilo psiquiátrico de Volterra, no norte da Itália, que foi fechado por uma lei de 1978, juntamente com todos os outros manicômios italianos. Hum... Acho que o fato de ter sido feito um jogo de terror ambientado em um manicômio é sinal de que não era um lugar legal para se ficar... O asilo real abandonado por si só já me assusta:
O jogo tem como objetivo explorar as memórias de Renée, que havia sido internada aos 16 anos de idade. Ele se inicia nos tempos atuais, perto do asilo, e o jogador entra no lugar em ruínas guiado pela voz de Renée. Este explora ambientes realistas baseados nas ruínas reais e encontra documentos que o fazem voltar no tempo e encontrar lembranças confusas e tortuosas através dos olhos de Renée.
Pois é... Eu ainda não joguei e acho que nem vou jogar porque morro de medo de terror. Me pelei de medo só com as imagens do demo abaixo:
Os manicômios deixaram cicatrizes na história da Itália, e The Town of Light é um jogo que deseja manter vivas as lembranças do que aconteceu, com foco em questões de doença mental que existem na nossa sociedade.
Este “simulador de cirurgião” é uma piada. Ele nasceu em uma Game Jam e hoje é vendido para diversas plataformas. Você controla o braço esquerdo de um cirurgião para fazer transplantes de vários órgãos. O resultado é uma bagunça. Você quebra as costelas do paciente, voa osso para todo lado, tira um pulmão, ele cai atrás da mesa de cirurgia. É muito difícil controlar esse braço e o paciente morre na maioria das vezes.
O protagonista (o tal do cirurgião) é todo errado. Logo no início a gente descobre que ele usa remedinho que passarinho não toma. Ele usa um relógio que nos primeiros movimentos solta do pulso e vai cair lá no meio dos órgãos do paciente. Logo depois a imagem fica psicodélica por causa dos remedinhos que ele toma. Não consigo!
Pois é... Uma grande piada com cirurgias de alta complexidade que virou sucesso mundial...
Me deixa revoltada. Sabe aquele ditado da USP “Enquanto você dorme o japonês estuda”? Pois é... Para mim é “Enquanto você dorme o coxinha mete o malho no SUS”. Os desenvolvedores contaram em entrevista que fizeram este jogo para um evento internacional de games e queriam MOSTRAR PARA O MUNDO como é o Sistema Único de Saúde brasileiro.
Acho que as pessoas têm direito de criticar os serviços públicos sim, o problema é fazer isso de maneira alienante, que não mostra a realidade e ainda esconde os reais culpados pelas lambanças. Por exemplo, tem um momento em que você entra em uma sala pensando que vai ser atendido e... RÁ! Pegadinha do Malandro! É a sala da Copa do Mundo no Brasil.
Quer dizer que o hospital é ruim porque o dinheiro foi para a Copa? O circo dos trouxas? Eles são de São Paulo, por que não colocaram então o Geraldo Alckmin desviando verba do Ministério da Saúde? Nem devem saber que os Princípios Organizativos do SUS são descentralização, regionalização e hierarquização. Vão estudar sobre o quê vocês estão reclamando, meninos!
Bem, para mim agora pesa nos ombros a responsabilidade de desenvolver um jogo que fale sobre a importância do SUS, o que há de insubstituível nele (que a saúde privada não faz e nem quer fazer), sobre como ele funciona, sobre como ter acesso aos serviços e mil coisas mais. Fica a dica: